RESIDÊNCIA ESTUDANTIL DE PEDRA BADEJO: 60 milhões por água abaixo

A infraestrutura tem capacidade para 60 estudantes, mas alberga apenas um. Graves erros estruturais comprometem a instalação hidrosanitária. O Estado português - parceiro da obra accionou na Justiça um processo contra o empreiteiro, mas as coisas parecem estar em banho-maria. Aquando da inauguração, o espaço foi considerado “uma referência na formação em Cabo Verde”

A Residência Estudantil de Pedra Badejo é um exemplo claro da falta de rigor com que são implementadas as obras públicas em Cabo Verde, para mais quando a emergência dos ciclos eleitorais se sobrepõe ao interesse público e às necessidades de boa gestão de recursos.

Inaugurada em Fevereiro de 2010 (um ano antes das eleições legislativas), a infraestrutura – decorrente de uma parceria conjunta entre o governo cabo-verdiano, a Câmara Municipal de Santa Cruz e o governo de Portugal -, cuja construção e equipamentos estão orçados em 60 milhões de escudos, encontra-se praticamente de portas fechadas, já que foram detetados erros estruturais na instalação hidrosanitária. A informação foi avançada à Inforpress pelo coordenador do Centro de Emprego e Formação Profissional local (CEFP), Artur Sanches.

Residência tem apenas um estudante

Com capacidade para acolher 60 formandos, a residência alberga apenas um estudante da ilha do Sal, que se encontra à espera de frequentar um estágio. “Ainda não fechamos completamente as portas, mas também não pretendemos receber mais estudantes, porque o espaço realmente precisa de intervenções”, disse Artur Sanches, sublinhando tendo sido detetados erros “muito graves” no próprio ano da inauguração da infraestrutura, pelo que “após uma análise mais aprofundada, chegou-se à conclusão que existem alguns defeitos que se resumem numa instalação hidrosanitária completamente comprometida, ou seja todo o sistema de instalação sanitária possui defeitos”, adiantou o coordenador do CEFP em Santa Catarina.

A situação é de tal forma grave que o governo português foi obrigado a acionar na Justiça uma queixa-crime contra a empresa responsável pela obra. No entanto, não se percebe como falharam os mecanismos de fiscalização que não repararam (ou não quiseram reparar) em deficiências que, posteriormente, foram logo detetadas.

Para que a obra não vá totalmente por água abaixo, a cooperação portuguesa tem já disponível a quantia de 20 mil euros para proceder às necessárias reparações, uma verba que, contudo, é insuficiente, mas que a qualquer momento poderá chegar às mãos dos responsáveis pela gestão da residência. Por tal, o coordenador do CEFP está agora apostado em mobilizar parceiros para serem disponibilizados mais recursos, e Artur Sanches tem no horizonte a autarquia local e o governo central.

Quando tudo eram maravilhas

Aquando da inauguração da Residência Estudantil de Pedra Badejo, o primeiro-ministro considerou tratar-se de “um grande património”, tendo sustentado que “Pedra Badejo está a transformar-se numa cidade mais cosmopolita e nada mais justo que um lar para receber formadores e formandos que vêm de outras ilhas”. Um otimismo extensível ao então vice-presidente do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) de Portugal, Alexandre Rosa, que declarou: “Aqui começou o primeiro pontapé de saída da cooperação no domínio da formação profissional com a criação do centro de formação que hoje é uma referência na formação em Cabo Verde”. Uma “referência” que, como já se viu, (quase) foi por água abaixo.

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