Diminuição do poder de compra traz a falência

As lojas dos bairros do Mindelo, sempre foram o socorro dos mais necessitados. Mas a maioria corre o risco de fechar as portas sufocada pelos impostos, pelos “fiados” e pela diminuição do poder de compra da população mais carenciada. Mais um retrato de um São Vicente a minguar.

Há muito que as mercearias servem as pessoas e são tidas não apenas como meras casas comerciais, mas também como um espaço familiar já que estão presentes nas zonas e os comerciantes e os clientes conhecem-se uns aos outros. A economia da ilha de São Vicente passa por um momento difícil e as mercearias, casas de pequeno comércio, têm sentido os efeitos da crise. As vendas decresceram e não há sinais de retoma.

Tentando entender como é que as mercearias sobrevivem na conjuntura actual, os donos traçam um cenário difícil no qual as vendas têm baixado de forma substancial e, cada dia que passa fica mais penoso manter o comércio aberto. As palavras podem diferenciar-se para descrever a situação por parte dos vários responsáveis das mercearias, mas o sentimento é o mesmo: “cada dia está pior”.

Arlinda Fonseca, da Mercearia Fonseca, na Ribeira Bote, questionada sobre a situação da sua mercearia simplesmente convida a ver como a loja está. As prateleiras quase vazias e ninguém na loja para comprar. José Miguel, em Lombo Tanque, gere uma mercearia familiar e indica na falta de emprego uma das razões para que a situação das mercearias esteja num estado delicado. A questão do alto desemprego é, por sua vez, citada por outras mercearias.

A crise apontada por Osvaldina da Luz, da Mercearia da Luz em Fonte Francês, é a base de todos os problemas. Segundo Arlinda, de tempos em tempos as mercearias costumam passar por períodos menos bons e, neste momento, a economia “não está estagnada mas sim parada”.

Ainda para complicar a conta das mercearias, José Miguel fala dos impostos e taxas que têm de pagar. Mas as mercearias estão a perder terreno para o grande comércio. José reclama do facto de todas as pessoas terem a possibilidade de comprarem a grosso fazendo com que os revendedores, isto é, as mercearias, vendam menos. Pois esses clientes vão comprar onde o retalhista vai comprar.

Mas, outro ponto negativo que periga a sustentabilidade do negócio é o fiado. Tratando-se de “lojas familiares” onde muitas vezes se tenta ajudar outras pessoas, segundo este responsável, as mercearias são sempre prejudicadas. “Nós confiamos nas pessoas e, muitas vezes, tentamos ajudar, mas só que não nos ajudam pagando o que devem”, sublinha Arlinda. Sem o retorno do fiado não se consegue repor os produtos na loja. Este é um problema crónico que roda num ciclo vicioso. Pois, apesar dos calotes, as mercearias continuarão a “dar fiado”, pois é melhor ter créditos a haver do que não vender nada.

“Temos de ter sempre o pensamento positivo que as coisas vão mudar mas não sei se vão mudar”, avança Arlinda. A esperança destes comerciantes é que as coisas possam mudar mas, com o andar da carruagem, a esperança é pouca com o cenário de crise a piorar à medida que o tempo passa.

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