FOGO: SÃO FILIPE ASSINALA HOJE OS 97 ANOS DA SUA ASCENÇÃO À CATEGORIA DE CIDADE

 

O aglomerado populacional mais antigo de Cabo Verde, depois da ruína da Ribeira Grande, actual Cidade Velha, na ilha de Santiago, São Filipe, assinala hoje os 97 anos da sua ascensão à categoria de cidade.

 

Foi a 12 de Julho, mas do ano de 1922, que a então Vila (Bila como continua a ser tratada por muitos dos seus filhos) ganhou estatuto de cidade, tendo contado, na altura, com influência política do cidadão foguense Abílio de Macedo, contando na data da sua elevação à cidade com 4100 fogos, segundo dados do Plano Director Municipal e Plano de Desenvolvimento Urbano (PDU).

O diploma legal número 2 de 12 de Julho, publicado no Boletim Oficial Nº 28 de 1922, aprovado pelo Conselho Legislativo Colonial, elevava a vila à categoria de cidade, elencando como argumento o facto desta urbe, “depois de ter jazido longos anos no mais censurável esquecimento”, ter sido “contemplado nestes últimos tempos com algumas obras”, nomeadamente a igreja de Nossa Senhora da Conceição que, nesta altura, apenas faltava pequenos trabalhos de acabamentos, a Alfandega no porto da Luz e alguns lanços de estradas.

Além disso, o documento de base que determinou a atribuição do estatuto de cidade à então vila destaca que a “a dinâmica natural tenha ganhado um certo ritmo”, pois, explica, “só assim se compreende que poucas dezenas de anos depois, a Vila tenha sido elevada à cidade, dado o lugar que ocupava entre as restantes vilas da província”.

“As nobilíssimas tradições que a história regista como o gesto sublime de grandeza e patriotismo pela sua atitude altiva contra o domínio de Espanha (…), a avultada riqueza comercial e agrícola (…), os importantes melhoramentos e notórias modificações, por que tem passado, atestam na fisionomia social da sua população o louvável desejo de engrandecer e progredir”, refere o documento.

Um “apreciável grau de instrução” da população, sendo “insignificante” o número de analfabetos e o rendimento com que concorria para os cofres da província, foram outras das razões que ditaram a elevação da Vila (Bila) de São Filipe à categoria de cidade.

No entanto, só na primeira metade do século passado se iniciou o melhoramento urbano, com calcetamento das ruas, melhoria das praças, ajardinamento, construção do hospital, abastecimento de água e electricidade, construção da pequena estrada do porto de Fonte Vila e os primeiros carros.

Actualmente, a Cidade de São Filipe é uma cidade integrada por 23 bairros e lugares, e é o maior centro de convergência dos que abandonam o campo na mira de encontrar alternativas à vida rural, salvo os que migram para outras ilhas, como Santiago, Sal ou Boa Vista.

O aumento demográfico da Cidade de São Filipe levou a população a atravessar as ribeiras da Trindade e de São João que sempre marcaram os limites naturais da Cidade, fazendo-a crescer para Achada São Filipe, Xaguate Baixo e Cima, praia de Nossa Senhora, Montinho I e II, Alto Santa Luzia e Achada Bombardeiro, sendo que em 2010 a sua população era de 8.122 habitantes, cerca de 36,5 por cento (%) da população do Município, segundo dados do INE.

A Cidade de São Filipe conta com 23 lugares próximos uns dos outros, com uma população média de 353 habitantes, destacando-se pela sua dimensão: Santa Filomena, Fonte Aleixo, Congresso, Lém de Cima, Santa Filomena de Cima, Pé de Campo, Centro da Cidade, Lém de Meio, Fonte Aleixo, Achada São Filipe, Achada Bombardeiro, Cobom, Beltches, Xaguate, Campo Novo, Lém de Baixo, Xaguate Baixo, Xaguate Cima, Xaguate Industrial, Alto Xaguate, Montinho I, Montinho II, Praia Nossa Senhora, todos os lugares com configuração urbana.

Pese embora o conjunto histórico-patrimonial de São Filipe se afigure na Lista Indicativa de Cabo Verde entregue a UNESCO em 2004/2005, constata-se uma descaracterização do seu centro histórico.

Essa transformação arquitectónica e urbana é sobejamente notória, uma vez que a integridade e a própria autenticidade, tanto dos edifícios em particular, como do conjunto, do qual tomam parte tanto os edifícios civis (sobrados), religiosos (igreja matriz, cemitérios) e administrativos (paços do concelho), foram totalmente falseadas e sofreram drásticas transformações, algumas com carácter irreversível no que se refere ao traçado arquitectónico original.

Para o activista cultural e professor Fausto do Rosário, passados os anos, “a cidade de São Filipe constitui-se quanto ao mais perfeito reflexo do que hoje é o paradoxo e a encruzilhada com que se debate a própria ilha quanto ao seu futuro: um potencial imenso, uma herança única dos quais todos falam, mas que continuam estagnados no tempo”.

Para o arquitecto Cláudio Barbosa, o crescimento da cidade não foi desenhado e pensado da melhor forma e prova disso é que nas zonas de expansão pensou-se apenas nos edifícios e praticamente não dispõe de espaços de lazer.

A título de exemplo, apontou que enquanto na área que ocupava a cidade em 1922 abundam praças, pracetas, largos e espaços de lazer, na zona de expansão não existem estes espaços, observando que as praças nestes bairros se contam pelos dados de uma só mão.

Para a responsável da Casa da Memoria, Monique Widmer, o festejar da elevação da Vila a Cidade devia ser uma data para dar a conhecer às pessoas as razões porque ela passou para a cidade e exteriorizar os serviços da administração pública, nomeadamente da Câmara.

Por outro lado, defende uma melhor interacção entre a cidade e os seus habitantes, através de desenvolvimento da perspectiva do voluntariado e do sentido comunitário nas pessoas.

Hoje, no dia da celebração dos seus 97 anos, a autarquia homenageia o Padre Octávio Fasano e as associações ASDE e AMSES, para além do lançamento da primeira pedra da construção da Casa do Pescador no porto de Vale dos Cavaleiros, financiada pela autarquia e ASDE, realização da conferência “Desenvolvimento Local e Regional”, e assinatura do contrato de empreitada/consignação da obra da praça João Paes, prevista para quinta-feira.

 

FONTE: SAPO CABO VERDE

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