FAJÃ, TERRA ESQUECIDA (III): O mercado da vergonha

Cinco mil contos votados à degradação por mero capricho e revanche política, desbaratando-se investimento público e privando as populações de uma infraestrutura considerada essencial para a terra. E tudo, segundo nos disseram, porque Américo Nascimento estabeleceu como estratégia apagar as marcas da gestão anterior, não deixando pedra sobre pedra

Numa terra onde as infraestruturas se pautam pela ausência, é ainda mais incompreensível que o Mercado Municipal esteja ali de obra parada (nas fotos), vai para tantos anos, para mais quando é percetível a falta que faz em Fajã, uma zona onda a agricultura é o setor dominante e os produtores não têm espaço para vender os seus produtos. Mas não só, as peixeiras têm de andar pelas ruas, de porta em porta, pois não têm local para venda em condições de dignidade e, muito menos, uma câmara frigorífica onde possam armazenar o produto.

A única coisa que falta para que o mercado funcione são os acabamentos e os equipamentos, porque a estrutura central, à exceção da cobertura, está ali toda para quem quiser ver e é uma dor de alma. Uma dor que a senhora Maria dos Santos (na foto, com a filha), produtora e vendedora dos produtos que arranca à terra, vê todos os dias da casa fronteira onde reside. Maria é uma espécie de “zeladora” do espaço que, amiúde, vai limpando para que a degradação não o tome de forma mais extrema. “Não percebo porque é que as obras estão paradas”, diz a senhora com a tristeza estampada no rosto, “o mercado faz muito falta a esta terra pois não temos nenhum sítio onde possamos vender”, adianta a vendedora que tem banca montada no mercado do Tarrafal. Maria, como se disse, vai cuidando do espaço e utiliza o piso superior para estender a roupa, a única utilidade do gigante moribundo, mas também o único indício de vida e utilidade que se lhe conhece.

O esqueleto do edifício está ali desde 2007, resultante de um projeto da administração municipal de Amílcar Spencer Lopes (MpD), e o terreno foi comprado a privados pela Câmara Municipal da Ribeira Brava. O projeto de arquitetura é muito interessante e saiu da “prancha” de José Gomes, um arquiteto de reconhecida competência, um homem nascido em Covoada mas filho adoptivo da Fajã onde cresceu. Cálculos e orçamentação saíram da lavra do Gabinete Técnico do município.

Desbaratar investimento público

Orçado num valor global de oito mil contos, o projeto foi financiado parcialmente pelo Plano Ambiental Municipal (PANA), tendo recebido a aprovação do Governo e sendo inscrito no Plano de Atividades da câmara, tendo como período de realização os anos de 2007/2008. Tudo claro e transparente.

A parte edificada, corresponde a uma verba à volta de cinco mil contos da responsabilidade do PANA e o restante, num valor entre os dois mil e os três mil contos, teria de ser inscrito no Orçamento Municipal de 2008, o que não veio a acontecer por razão da ocorrência de eleições autárquicas nesse ano. A gestão de Spencer Lopes, por razões éticas, resolveu não aprovar o orçamento antes das eleições e o município funcionou com duodécimos até Maio desse ano.

Revanche política

Com a mudança de equipa municipal, decorrente da vitória da lista encabeçada por Américo Nascimento (PAICV), os habitantes de Fajã esperavam que a conclusão do mercado fosse inscrita no orçamento, no entanto, tal nunca veio a acontecer. Na terra comenta-se que a atitude do edil (reeleito em 2012) se prende apenas com razões de revanche política, que adotou como estratégia não concluir, reiniciar ou iniciar obras concebidas pela equipa cessante. Aliás, esta conduta de “Meca” teve logo reflexos no próprio ato de tomada de posse, onde se escusou a cumprimentar o edil cessante e, dirigindo-se diretamente ao Primeiro-ministro (presente na sala), pediu a realização de uma auditoria às contas do município. Uma auditoria, aliás, que concluiu não ter havido qualquer ilegalidade e que acentuou as boas práticas da gestão de Amílcar Spencer Lopes.

Apagar as marcas da anterior gestão

Américo Nascimento não só não inscreveu a finalização da obra do Mercado Municipal de Fajã no orçamento de 2008, nem em nenhum outro até hoje, como resolveu destruir o que já tinha sido feito pelo seu antecessor. Em vez de disponibilizar três mil contos para esse fim, o edil resolveu gastar quase quatro mil contos para quebrar o tanque construído na Praça Dr. Júlio José Dias edificando um outro, com o argumento de que o anterior não tinha a ver com a realidade local. A obra do novo tanque, da responsabilidade do artista plástico de São Vicente Manú Rasta, foi entregue a um amigo político de “Meca”, Manuel de Esplanada, gastando assim mais do dobro do que a recuperação da praça tinha custado à gestão cessante (que se tinha ficado por apenas 1.500 contos).

Mas não se ficou por aqui, na estratégia de apagar a obra da anterior vereação, o edil resolveu instalar um fitness park logo em cima do fontenário de Passagem, uma das obras emblemáticas de Spencer Lopes, quando poderia perfeitamente tê-lo instalado noutro lado.

A oposição municipal, por várias vezes, tem vindo a questionar “Meca” sobre a conclusão da obra do mercado, mas o edil continua irredutível, não a orçamentando nem dando sinal que alguma vez o venha a fazer. Pelo contrário, comenta-se na terra a intenção do autarca em entregar a infraestrutura ao Ministério do Desenvolvimento Rural ou mesmo a uma “associação camarada”, já que recentemente admitiu a possibilidade de o espaço poder vir a ser palco da promoção do agro-negócio - a bandeira emergente desta gestão municipal.

Mas, logo no início do seu primeiro mandato, Américo Nascimento pretendeu transferir para ali o Centro de Saúde, com o argumento de que o espaço do mercado teria melhores condições, mas a intenção ficou-se por aí. Provavelmente, no Ministério da Saúde gente com mais bom senso não foi na conversa.

Neste entretanto, vendedores de produtos agrícolas e peixeiras continuam a comercializar as suas mercadorias porta a porta ou nas portas das próprias casas, não tendo condições de armazenamento e privando os consumidores de um espaço que tem todos os requisitos para oferecer ao público, aos produtores e comerciantes um serviço de qualidade, nomeadamente, garantindo o armazenamento dos produtos em câmaras de frio, como era intenção da vereação anterior. Cinco mil contos de investimento foram votados à degradação por mero capricho e revanche política.

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